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Por que os reality shows brasileiros explodem em audiência agora

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Você já se pegou assistindo a um reality show brasileiro às duas da manhã, prometendo que ia dormir depois do próximo bloco — e aí percebeu que eram quatro horas da manhã e você ainda estava colado na tela? Eu fiquei nesse ciclo por um bom tempo sem entender direito o que estava acontecendo comigo. E depois de anos acompanhando, errando análises, subestimando formatos e mudando de opinião mais de uma vez, finalmente entendi por que esses programas têm uma força que vai muito além do “as pessoas gostam de ver drama alheio”.

A resposta é mais complicada — e mais interessante — do que parece.

Os reality shows sempre foram populares. Então por que parece que agora é diferente?

Essa é a primeira pergunta que eu me fiz quando comecei a prestar mais atenção no fenômeno. Afinal, o Big Brother Brasil existe desde 2002. A Globo nunca deixou de colocar algum formato de confinamento ou competição no ar. Então o que mudou?

O que mudou foi o ecossistema em volta do programa. O reality em si pode ser o mesmo — mas a experiência de assistir não é mais só assistir.

Antes, você via o programa, comentava na segunda-feira com o colega de trabalho e acabava. Hoje, enquanto o episódio acontece, você está no Twitter — ou no X, como queira — vendo o que mil pessoas estão pensando ao mesmo tempo. Você entra em grupos de WhatsApp. Você assiste ao “ao vivo” da casa no Globoplay. Você vê o corte do momento no TikTok no dia seguinte. O programa virou um evento social distribuído, e isso multiplica o engajamento de um jeito que nenhuma produção televisiva conseguia gerar antes.

Eu errei feio nessa análise durante anos. Achei que o BBB estava morrendo lá por volta de 2018, 2019 — audiência caindo, críticas em alta, parecendo um formato esgotado. Aí veio 2020, com o “BBB das celebridades” misturado ao BBB de pessoas anônimas, e o programa explodiu de um jeito que eu não vi vir. Aprendi que subestimar a capacidade de reinvenção desses formatos é um erro clássico.

Por que o público brasileiro responde tão forte a esse tipo de conteúdo?

Tem uma coisa que eu demorei pra aceitar porque parecia condescendente demais: o brasileiro tem uma relação com entretenimento coletivo que é culturalmente muito específica.

Aqui, torcer junto faz parte da identidade. Copa do Mundo, Carnaval, eleições — tudo vira evento de grupo. O reality show capturou essa lógica. Você não assiste sozinho; você assiste com o Brasil. E isso cria um senso de pertencimento que nenhum streaming de catálogo consegue replicar, porque catálogo você consome no seu tempo, no seu ritmo, sem ninguém pra dividir o momento exato.

O reality impõe um calendário compartilhado. Todo mundo viu a mesma cena, na mesma noite. Isso é raro e valioso.

Tem também a questão da identificação. Os melhores momentos dos reality shows brasileiros — os que viraram meme, os que geraram discussão real — quase sempre tocaram em algo que o público reconhece da própria vida: relações de poder, lealdade, traição, preconceito, ascensão social. Não é voyeurismo puro. É o Brasil se vendo no espelho, às vezes com desconforto.

Mas por que agora, especificamente em 2025 e 2026, a audiência disparou?

Aqui eu tenho uma opinião que não é consenso, mas que defendo: a fragmentação do streaming criou uma demanda reprimida por experiência coletiva.

Nos últimos anos, o mercado empurrou todo mundo pra consumir conteúdo de forma individual — cada um no seu aplicativo, na sua lista, no seu horário. Ótimo pra liberdade de escolha. Péssimo pra aquela sensação de “todo mundo tá falando da mesma coisa”.

O reality ao vivo — ou com episódios semanais que criam expectativa — voltou a preencher esse espaço. Não à toa, plataformas de streaming começaram a investir em formatos de reality próprios, tentando capturar exatamente esse engajamento que a TV aberta ainda domina melhor.

Tem também o fator econômico. Em períodos de aperto financeiro, o entretenimento gratuito — ou quase gratuito, via TV aberta — ganha relevância. O brasileiro médio não precisa pagar nada a mais pra assistir ao BBB ou ao A Fazenda. E mesmo quem tem streaming contratado acaba voltando pra TV aberta nos horários de pico desses programas.

A Fazenda, BBB, MasterChef — cada um explode por um motivo diferente?

Sim, e essa diferença me levou um tempo pra enxergar com clareza.

O BBB funciona pela intensidade do confinamento e pela política interna — alianças, votos, estratégia. É quase um jogo de xadrez emocional. O público que engaja aqui é o que gosta de análise, de campanha, de movimentar o jogo de fora.

A Fazenda, da Record, tem uma dinâmica mais visceral. O ambiente rústico, as tarefas físicas e o perfil dos participantes — geralmente ex-famosos, influenciadores e pessoas com histórico de polêmica — criam uma tensão diferente. É mais explosivo, mais imprevisível nas reações humanas. Quem acompanha A Fazenda costuma ter um apetite maior pelo confronto direto.

O MasterChef Brasil, da Band, é outro animal. Ele não depende de drama interpessoal — depende de competência técnica e narrativa de superação. O público que vai pra lá quer torcer por alguém que está aprendendo, crescendo, se superando. A tensão vem da prova, não da treta. E isso atrai um perfil que às vezes nem se considera “fã de reality”.

Eu me incluía nesse grupo por muito tempo. Achava que não gostava de reality show — e aí percebi que assistia ao MasterChef religiosamente toda semana. Tive que rever minha própria definição do gênero.

O que as redes sociais fazem com esses programas que a TV sozinha não conseguia?

Elas transformam espectadores passivos em participantes ativos do espetáculo.

Um meme que sai de uma cena do BBB pode ter mais visualizações no TikTok do que o episódio original teve de audiência na TV. Isso não é perda — é extensão. O programa alcança pessoas que nunca ligaram a televisão naquela noite, mas que passaram a conhecer os participantes, a ter opinião sobre eles, e eventualmente a assistir.

Tem um efeito que eu chamo — sem nenhuma pretensão acadêmica — de “funil invertido”: o clipe viral no TikTok leva o espectador pro programa completo, que leva pro pay-per-view ou ao vivo no streaming. A TV aberta virou topo de funil do seu próprio ecossistema.

E os próprios participantes entenderam isso. Hoje, entrar num reality não é só disputar um prêmio — é um trampolim de carreira. Muitos participantes do BBB nos últimos anos saíram com contratos publicitários, carreiras musicais ou audiências enormes nas redes. Isso muda o tipo de pessoa que quer participar, o que por sua vez muda a dinâmica do programa, o que atrai mais atenção. É um ciclo que se alimenta.

Por que algumas temporadas bombam e outras afundam, mesmo sendo o mesmo programa?

Essa é a pergunta que produtores de TV perdem sono tentando responder, e a resposta honesta é: ninguém controla totalmente isso.

O que dá pra identificar retrospectivamente são alguns padrões. Temporadas que explodem quase sempre têm pelo menos um participante que polariza — que você ama ou odeia, mas que você tem uma opinião forte. A indiferença mata o reality. O conflito de valores — não só briga por briga — sustenta o interesse.

Temporadas que afundam tendem a ter um elenco que não cria tensão genuína, ou uma edição que suaviza demais os conflitos por medo de polêmica. Existe um equilíbrio delicado entre mostrar o que é real e proteger a produção de problemas — e quando a produção pesa demais no segundo lado, o público sente que está sendo manipulado e abandona.

Eu já defendi em conversas que tal temporada do BBB era “a melhor em anos” — e errei. Já disse que outra seria um desastre — e errei de novo. Humildade: o gosto do público brasileiro é menos previsível do que qualquer análise prévia sugere.

Tem algum limite pra esse crescimento? O formato vai saturar?

Essa é a pergunta que eu faço — e que honestamente não sei responder com certeza.

O que sei é que toda vez que alguém decretou o fim do reality show, o gênero deu uma virada e voltou mais forte. Aconteceu com o BBB, aconteceu com A Fazenda, aconteceu com formatos internacionais que foram adaptados aqui.

O que pode mudar é o suporte. A TV aberta ainda domina, mas o streaming ao vivo está crescendo como plataforma pra esses formatos. A experiência interativa — onde o público influencia o programa em tempo real de formas mais sofisticadas do que apenas votar — ainda está na infância no Brasil. Quando isso amadurecer, o engajamento pode dar outro salto.

Saturação pode vir se os formatos não se reinventarem. Mas o histórico mostra que eles reinventam. A questão é se a reinvenção vai acontecer na TV aberta, no streaming, ou numa mistura dos dois que ainda não existe direito.

Então, no fim, o que explica tudo isso?

O reality show brasileiro explode em audiência agora porque ele encontrou o momento certo: um público que passou anos consumindo conteúdo sozinho e sente falta de experiência compartilhada, uma camada de redes sociais que transforma cada episódio num evento que dura dias, e uma tradição cultural brasileira de torcer junto que não some — só muda de arena.

Não é nostalgia da televisão. Não é falta de opção. É que o reality, quando funciona, faz algo que série de streaming não faz: coloca todo mundo no mesmo momento, ao mesmo tempo, discutindo as mesmas coisas.

E no Brasil, isso tem um valor que vai muito além da audiência. Tem a ver com como a gente se reconhece — e se estranha — uns nos outros.

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