Segundo o relatório Women’s Football Report 2023, publicado pela FIFA, o Brasil figura entre os países com maior crescimento de jogadoras registradas na última década — e esse número vem aumentando de forma consistente mesmo nos clubes que a maioria das pessoas nunca ouviu falar. Não nos gigantes. Nos pequenos.
Eu acompanho esse movimento de perto. Não como espectadora neutra, mas como alguém que passou anos trabalhando com formação esportiva em cidades do interior, vendo de dentro o que acontece quando uma equipe feminina começa do zero — sem estrutura, sem patrocínio, sem visibilidade. E o que me surpreendeu não foi o crescimento em si. Foi de onde ele veio.
Tudo começa com uma necessidade que ninguém planejou
A história típica de um clube pequeno que cria uma equipe feminina não começa com uma reunião de diretoria ou uma decisão estratégica bem elaborada. Começa porque apareceu um grupo de meninas querendo jogar e não tinha onde. Assim, sem cerimônia.
Eu vi isso acontecer em mais de uma cidade. Uma professora de educação física que resolve improvisar treinos num campo de terra. Um pai que começa a levar a filha pra treinar com os meninos porque não há outra opção. Um clube de bairro que cede o espaço nas terças e quintas porque o campo fica vazio mesmo.
Essa é a fase zero — e ela é mais comum do que qualquer relatório vai conseguir capturar. Não tem CNPJ, não tem uniforme, não tem técnico certificado. Tem vontade. E, curiosamente, é exatamente aí que o processo começa a criar raízes de verdade.
A formalização: o momento mais difícil e mais decisivo
Depois de alguns meses de treinos improvisados, a pressão por algum tipo de estrutura aparece. As meninas querem competir. Os pais querem saber se isso vai a algum lugar. E o clube — que muitas vezes é uma associação comunitária sem muita gordura no orçamento — precisa decidir se bancar uma equipe feminina vale o esforço.
Esse é o ponto em que muitos projetos morrem antes de virar notícia. Porque formalizar custa. Inscrição em federação estadual, uniforme regulamentar, seguro para atletas, transporte pra competições fora da cidade — tudo isso exige dinheiro que o clube pequeno raramente tem disponível de forma fácil.
O que aprendi observando os projetos que conseguiram atravessar essa fase: os que sobrevivem geralmente têm uma pessoa que resolve não desistir. Um dirigente que vai atrás de patrocínio local, uma técnica que trabalha por um salário abaixo do mercado porque acredita no projeto, um comerciante da cidade que banca os uniformes em troca de nome na camisa. Não é glamouroso. Mas é real.
Entrando nas competições estaduais: o teste de fogo
A primeira temporada numa competição oficial é, via de regra, difícil. Não por falta de talento — às vezes tem muito talento acumulado ali — mas porque jogar no sistema competitivo exige uma série de adaptações que vão além de saber chutar bola.
Tem o choque tático: meninas acostumadas a jogar de forma intuitiva, sem posicionamento formal, se deparando com adversárias que já treinaram com metodologia há anos. Tem o choque logístico: viagens longas, acordar às quatro da manhã pra pegar ônibus, jogar em campo com iluminação ruim ou grama destruída. E tem o choque emocional: perder de goleada e ainda assim precisar voltar pra treinar na semana seguinte.
Mas é exatamente essa temporada dura que separa os projetos sérios dos improvisados. Os clubes que encaram a primeira fase mal como aprendizado — e não como motivo pra abandonar — são os que começam a construir algo de fato consistente.
Quando a visibilidade aparece — e por que ela muda tudo
Uma coisa que me surpreendeu genuinamente foi perceber o papel das redes sociais nesse crescimento dos clubes pequenos. Não estou falando de estratégia de marketing sofisticada. Estou falando de um vídeo gravado no celular de um jogo num campo de barro que viraliza no WhatsApp da cidade inteira.
Esse tipo de visibilidade local tem um efeito que o patrocínio corporativo não compra: ele cria pertencimento. A torcida aparece porque é gente da cidade, é a filha da vizinha, é a menina que estuda na mesma escola. E quando a torcida aparece, o clube passa a existir de um jeito diferente no imaginário local.
Foi a partir desse momento — não antes — que eu comecei a ver patrocinadores locais aparecendo de forma mais orgânica. Farmácias, padarias, revendas de automóveis. Não é o mesmo que ter um banco ou uma empresa de telecomunicações no contrato, mas é suficiente pra pagar o ônibus e comprar um segundo uniforme.
A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) vem incentivando, nos últimos anos, que as federações estaduais ampliem a participação de equipes femininas nas competições regionais — o que criou um ambiente um pouco mais receptivo pra esses clubes menores se inscreverem sem sentir que estão chegando num espaço que não é deles.
O que muda dentro do clube depois que a equipe feminina vira realidade
Aqui tem uma coisa que quase ninguém fala: a equipe feminina transforma a cultura interna do clube. Quando existe uma equipe de mulheres treinando no mesmo espaço, usando o mesmo vestiário (ou brigando pra ter um), participando das mesmas reuniões de diretoria — a dinâmica muda.
Não idealizo esse processo. Tem resistência interna. Tem dirigente que acha que “futebol feminino não traz retorno”. Tem técnico do masculino que reclama de dividir o campo nos horários de treino. Eu ouvi esse tipo de coisa mais vezes do que gostaria de contar.
Mas também vi o outro lado: atletas do masculino que passaram a respeitar mais as jogadoras depois de assistir a um treino. Diretores que mudaram de opinião depois que a equipe feminina trouxe uma taça regional e o clube virou notícia no jornal da cidade. Esses pequenos deslocamentos de percepção são o que de fato sustenta o crescimento no longo prazo.
A questão da revelação de talentos — e o que acontece depois
Uma das funções que os clubes pequenos cumprem, e que os grandes raramente reconhecem abertamente, é a de peneira inicial. É no campo de barro do interior que uma menina de 14 anos vai aparecer jogando num nível que chama atenção de olheiros das capitais.
Esse fluxo existe e é importante. Mas ele também cria uma tensão real: o clube investe anos numa atleta, ela se desenvolve, e quando chega o momento de dar um salto maior, ela vai embora — muitas vezes sem que o clube receba qualquer compensação financeira formal.
A regulação de transferências no futebol feminino brasileiro ainda está num estágio bem menos maduro do que no masculino. Isso não é opinião — é uma lacuna que profissionais do setor discutem abertamente. Sem um mecanismo de solidariedade que funcione de verdade, os clubes pequenos ficam numa posição ingrata: formam, investem, e veem o retorno ir pra outro lugar.
Isso não significa que a formação deixe de valer a pena. Significa que o modelo de sustentabilidade ainda precisa evoluir muito.
O papel das políticas públicas — e onde elas ainda falham
Desde a lei que tornou obrigatória a destinação de recursos das loterias federais ao esporte — incluindo o feminino — existe uma expectativa de que o dinheiro público ajude a estruturar projetos de base. Na prática, o acesso a esse financiamento pelos clubes menores ainda é burocrático demais.
Preencher editais, comprovar regularidade fiscal, ter contador disponível pra assinar documentação específica — tudo isso são barreiras reais pra uma associação comunitária que funciona com dois funcionários e muito voluntariado. O dinheiro existe, mas o caminho até ele não foi desenhado pensando em quem mais precisa.
Algumas prefeituras têm feito parcerias diretas com clubes locais, cedendo espaço, custeando transporte e, em alguns casos, contratando técnicas como servidoras ou prestadoras de serviço. Quando funciona, é um modelo que resolve boa parte da equação de custo. Mas depende demais da vontade política do momento — e isso cria uma fragilidade estrutural que qualquer troca de gestão pode desfazer.
O que o crescimento recente realmente representa
Quando vejo estatísticas sobre o aumento de equipes femininas registradas nas federações estaduais nos últimos anos, fico com uma sensação dupla. Por um lado, é real — eu vejo isso acontecer na prática. Por outro, sei que muitas dessas equipes são frágeis, dependentes de uma ou duas pessoas, e que um imprevisto pode encerrar tudo.
O crescimento do futebol feminino nos clubes pequenos não é uma linha reta ascendente. É uma curva irregular, com avanços e recuos, com projetos que surgem e somem, com meninas que chegam cheias de energia e desistem quando a estrutura não corresponde à expectativa.
O que mudou — e isso sim é uma mudança real — é que o tema virou legítimo. Não precisa mais justificar por que futebol feminino merece existir. Essa discussão foi superada, pelo menos nas cidades onde acompanho de perto. O debate agora é sobre como fazer funcionar de verdade. E esse é um debate muito mais produtivo.
A Copa do Mundo Feminina de 2023, que trouxe a Seleção Brasileira de volta ao centro da atenção com força, teve um efeito concreto nas categorias de base dos clubes pequenos: mais meninas apareceram querendo treinar. Não é dado de pesquisa que eu possa citar com número exato — é o que os técnicos e coordenadores relatam de forma consistente quando você conversa com eles.
O que os clubes que estão conseguindo fazer de diferente
Observando de perto os projetos que avançaram de forma mais consistente nos últimos três ou quatro anos, identifico alguns padrões — não como fórmula, mas como tendência:
- Constroem uma identidade visual e uma presença nas redes sociais desde cedo, mesmo que seja simples
- Estabelecem parceria com escolas públicas da região pra fazer captação de atletas
- Têm pelo menos uma mulher em posição de liderança dentro da estrutura do clube — técnica, coordenadora ou diretora
- Tratam as atletas como parte do projeto, não como produto descartável — e isso retém talentos por mais tempo
- Criam vínculos com a comunidade antes de tentar atrair patrocínio externo
Nenhum desses pontos é revolucionário. Mas a diferença entre os clubes que crescem e os que estagnam raramente está numa ideia brilhante — está na consistência de fazer coisas simples de forma séria, semana após semana.
Se você está dentro de um projeto como esses — ou pensando em começar um — a minha recomendação mais concreta é esta: antes de buscar qualquer patrocínio ou visibilidade externa, invista tempo em criar um vínculo real com a comunidade local. Faça a cidade sentir que aquela equipe é dela. Porque quando isso acontece, o restante — a torcida, o apoio financeiro, a atenção da imprensa local — começa a vir de forma muito mais natural do que qualquer estratégia de captação vai conseguir produzir artificialmente. Clube pequeno que tem raiz na comunidade sobrevive ao que clube grande sustentado só por contrato não consegue atravessar.






