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Brasil na Copa 2026: por que este time pode surpreender

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O Brasil já foi campeão mundial cinco vezes — fato que a FIFA registra em seu site oficial e que qualquer torcedor brasileiro carrega como uma segunda identidade. Mas entre esse número e a próxima taça existe um abismo que eu levei anos pra entender direito. Não é só de talento que se faz uma Copa. E foi justamente acompanhando de perto os ciclos da Seleção — errando nas análises, mudando de opinião, revisando apostas — que comecei a enxergar 2026 com outros olhos.

Vou ser honesto: em 2022, eu estava convicto de que o Brasil ia longe. Tínhamos um elenco cheio de nomes pesados, uma geração que parecia encaixada, e um técnico que prometia equilíbrio. Você sabe como terminou. Aquela derrota para a Croácia nas quartas de final, nos pênaltis, me deixou sem argumento — não porque o resultado foi inesperado pra todo mundo, mas porque eu havia ignorado sinais que estavam ali, visíveis, antes mesmo do primeiro jogo. Desde então passei a olhar pra Seleção de um jeito diferente: menos emoção, mais estrutura. E o que estou vendo agora me deixa genuinamente curioso.

O que mudou de 2022 pra cá — e por que importa

A primeira coisa que aprendi a separar foi elenco de time. São coisas diferentes. Em 2022, o Brasil tinha jogadores de altíssimo nível individual espalhados por toda a Europa, mas a coesão dentro de campo era irregular. As transições defensivas eram lentas, a dependência de momentos individuais era alta demais, e o sistema tático não resolvia os problemas quando o adversário fechava os espaços.

Desde a saída de Tite e a chegada de Dorival Júnior ao comando da Seleção, houve uma mudança de postura que me chamou a atenção. Não porque Dorival seja o técnico mais badalado do mundo — ele claramente não é — mas porque ele trouxe algo que parecia ter sumido: uma identidade de jogo mais clara e uma disposição pra usar jogadores jovens sem tratar isso como risco. Ele não tem medo de dar responsabilidade pra quem está em momento, independente do nome.

Isso mudou o ambiente interno da Seleção de uma forma que dá pra perceber até em entrevistas coletivas — que costumam ser controladas, ensaiadas, e ainda assim entregam algo quando você presta atenção.

A geração que veio pra ficar — mas que eu subestimei por um tempo

Confesso que demorei pra levar Endrick a sério. Não porque ele não mostrasse qualidade — mostrava desde os tempos de Palmeiras —, mas porque já vi muita promessa brasileira ser engolida pela pressão de carregar expectativas antes da hora. O que me fez mudar de ideia foi acompanhar como ele se adaptou ao Real Madrid. Não foi fácil, não foi linear, mas ele não desapareceu. E jogador que não some quando a pressão aumenta tem algo diferente.

Mas Endrick é só uma parte da conversa. O que mais me impressiona nessa geração é a distribuição de qualidade. Não temos um único craque pra depender — temos uma camada de jogadores entre 19 e 25 anos competindo em alto nível na Europa, em posições variadas, com experiência real de jogos decisivos. Isso é diferente de ter talentos em potencial.

Vinicius Júnior chegou às vésperas da Copa como um dos melhores jogadores do mundo — não porque a imprensa brasileira quis empurrar esse rótulo, mas porque os números e as atuações em Champions League sustentam essa leitura. Rodrygo também. Raphinha, mesmo com toda a polêmica em torno do seu desempenho irregular pela Seleção, tem momentos de jogador decisivo. E aí você ainda tem Savinho, Lucas Paquetá — quando não tem suspensão ou problema extracamp complicando — e uma geração de laterais e meias que não existia há quatro anos.

O formato da Copa 2026 muda o jogo — literalmente

Aqui tem um detalhe que muita gente ainda não processou direito: a Copa de 2026 tem 48 seleções, e isso altera completamente a lógica do torneio. Mais times, grupos de três, mata-matas começando mais cedo. Isso significa mais jogos, mais desgaste, mais armadilhas nos primeiros rounds.

Pra seleções com elenco profundo — e o Brasil tem isso —, o novo formato pode ser uma vantagem. Você consegue rodar mais sem perder qualidade. Mas também significa que as zebras ficam mais fáceis de acontecer, porque times menores precisam vencer menos jogos pra criar um problema pra um favorito.

Eu fiquei pensando nisso por um tempo e cheguei a uma conclusão que vai contra o que eu defendia antes: o Brasil não pode entrar na Copa 2026 achando que a fase de grupos é formalidade. Com o novo formato, uma combinação ruim de adversários no grupo de três pode colocar o time numa situação desconfortável logo de cara. Gestão de elenco e foco desde o primeiro jogo vão ser mais importantes do que em qualquer Copa anterior.

A sede nos Estados Unidos — e o que isso tem a ver com o torcedor brasileiro

A Copa vai ser realizada nos Estados Unidos, Canadá e México. Pra mim, esse fuso horário importa mais do que parece à primeira vista. Em 2022, no Qatar, os jogos aconteciam em horários que, pra boa parte do Brasil, eram na parte da tarde ou começo da noite — televisão acesa, barzinho cheio, aquela vibe coletiva que faz a Copa ser Copa.

Com a Copa nos Estados Unidos, alguns jogos podem acontecer de manhã no horário de Brasília, dependendo da cidade sede. Isso não vai matar o entusiasmo — o brasileiro não precisa de convite pra parar tudo quando a Seleção joga —, mas pode mudar a dinâmica de consumo. Menos boteco, mais transmissão em casa. Menos cerveja fria às 17h, mais café às 9h. Pequeno detalhe, mas que diz algo sobre como essa Copa vai ser vivida.

E tem o custo de ir presencialmente. Viajar pros EUA custa caro — câmbio, passagem, hotel em cidade americana durante um megaevento. A torcida brasileira vai estar lá, porque sempre está, mas provavelmente em menor número do que estaria se a Copa fosse mais perto. Isso também é parte do cenário.

Por que eu parei de torcer contra as expectativas altas

Durante anos — e posso dizer isso porque vivi isso — eu ficava na posição de “pessimista cauteloso” quando o assunto era Seleção. Era quase uma defesa psicológica: se eu não acreditar demais, não vou sofrer tanto. Funcionou nas análises, mas me fez perder a capacidade de enxergar quando um time realmente tinha algo diferente.

Acho que 2026 é uma dessas situações em que o ceticismo automático pode fazer você errar a leitura. Não estou dizendo que o Brasil vai ganhar a Copa — isso eu não sei, e quem afirmar com certeza está chutando. Mas estou dizendo que esse time tem elementos que os times brasileiros das últimas duas Copas não tinham juntos ao mesmo tempo: profundidade de elenco, liderança técnica estabelecida, um técnico que parece ter encontrado um caminho tático, e uma geração jovem que já passou pelo fogo.

Tem coisa que ainda preocupa. A situação de Lucas Paquetá — enquanto o processo disciplinar na Fifa não se resolve, é uma incógnita no meio-campo que faz diferença. A lateral-direita ainda parece um ponto de dúvida. E a defesa, historicamente, costuma ser testada quando a Copa chega nas fases decisivas.

Mas olhar só pra esses problemas e ignorar o resto é o mesmo erro que eu cometi em 2022, só que invertido.

O que a história dos pentacampeões não garante — e o que ela ainda ensina

Tem algo que aprendi acompanhando Copa do Mundo desde criança: o peso da camisa brasileira é real, mas age nos dois sentidos. Às vezes intimida o adversário. Às vezes paralisa o próprio jogador.

A geração atual parece ter uma relação mais saudável com esse peso do que gerações anteriores. Vinicius Júnior, por exemplo, joga com uma liberdade que não é indiferença — é confiança construída em clube, semana após semana, contra os melhores do mundo. Quando você joga na Champions regularmente e sai vencedor de disputas individuais contra os melhores defensores da Europa, a camisa da Seleção não pesa da mesma forma que pesou pra jogadores que chegavam à Copa como o maior palco das suas vidas.

Isso não é garantia de nada. Mas é um fator que eu parei de ignorar nas minhas análises.

A história dos cinco títulos também ensina outra coisa que costumo repetir: o Brasil nunca ganhou Copa sendo favorito absoluto e dominando do início ao fim sem sustos. Sempre teve momento de sufoco, de jogo travado, de precisar de uma jogada individual ou uma decisão de arbitragem pra virar o rumo. Quem espera que a Seleção vai bater todo mundo de goleada vai se decepcionar em algum momento do torneio. A questão é se o time vai estar inteiro pra responder quando o sufoco chegar.

O que me fez mudar de posição sobre este ciclo

Teve um momento específico — acompanhando as Eliminatórias — em que percebi que estava diante de algo diferente. Não foi um resultado isolado, foi uma consistência que não esperava ver tão cedo. O Brasil passou por fases nas Eliminatórias Sul-Americanas que em outros ciclos teriam gerado crise pública, troca de técnico, convocações emergenciais. Desta vez, houve ajuste, não colapso.

Isso pode parecer detalhe, mas pra mim é termômetro. Time que responde a adversidade sem desmoronar tem estrutura. E estrutura é o que separa quem chega longe de quem volta na quartas.

Tenho dito isso pra quem me pergunta: não estou apostando na Copa porque acho que o Brasil é invencível. Estou prestando atenção porque, pela primeira vez desde 2002, vejo um conjunto de fatores que fazem sentido ao mesmo tempo — e não estou falando de magia ou de destino, estou falando de construção.

Claro que pode dar errado. Lesão de jogador chave, grupo difícil, uma noite ruim no momento certo — qualquer coisa dessas muda tudo. Copa do Mundo é assim. Eu aprendi isso do jeito mais frustrante possível em 2006, em 2010, em 2014, em 2022. A diferença é que desta vez estou acompanhando com os olhos abertos pra o que pode dar certo — não só pra o que pode dar errado.

E você, depois de tudo que viveu acompanhando a Seleção, ainda consegue torcer acreditando — ou já virou aquele torcedor que só acredita quando o árbitro apita o final do último jogo?

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