Lembro da primeira vez que fui convidado pra dar uma palestra sobre basquete brasileiro pra um grupo de jovens atletas num ginásio do interior de São Paulo. Antes de começar, um dos meninos levantou a mão e perguntou, com toda a sinceridade do mundo: “Professor, o basquete do Brasil é sério mesmo, ou a gente tá sempre atrás dos outros países?” Aquela pergunta me pegou. Não porque fosse ingênua — muito pelo contrário. Era exatamente a dúvida que eu via em adultos, técnicos e até em jornalistas que cobriam esportes olímpicos. O basquete brasileiro vivia nessa sombra de ser “quase bom”, de ter potencial, de estar “chegando lá”. E por muito tempo, essa percepção tinha um fundamento real.
Mas algo mudou. E quem acompanha de perto — seja ensinando, treinando ou apenas assistindo com atenção — percebe que essa mudança não foi súbita. Foi construída com uma combinação de fatores que raramente aparecem todos juntos ao mesmo tempo.
O que o Brasil fez de certo — e que muita gente subestima
O primeiro ponto que sempre levanto quando falo sobre a evolução do basquete nacional é a profissionalização da base. O Novo Basquete Brasil (NBB), que é a liga profissional organizada pelo Instituto Nação Basket em parceria com a Confederação Brasileira de Basketball (CBB), trouxe uma estrutura que antes simplesmente não existia com essa consistência. Times com departamentos de formação, calendários estáveis, transmissão ao vivo — isso parece básico, mas durante décadas o basquete brasileiro funcionou de forma muito mais improvisada.
A seleção masculina voltou a ser competitiva em nível sul-americano de forma consistente a partir da segunda metade dos anos 2010, e isso não aconteceu por acaso. A presença de jogadores que passaram pela NBA — como Anderson Varejão e Leandro Barbosa em gerações anteriores, e mais recentemente Cristiano Felício — criou um padrão de exigência interno que elevou o nível de todos ao redor. Quando você tem alguém no vestiário que jogou ao lado de LeBron James, o treino muda de tom.
Outro fator que ensino sempre que posso: a qualidade dos técnicos brasileiros cresceu. Nomes como Aleksandar Petrovic, que dirigiu a seleção masculina, trouxeram metodologia europeia ao nosso basquete. Essa mistura de influência americana — que sempre esteve presente pela proximidade cultural e pelo sonho da NBA — com a sistematização tática europeia criou um estilo de jogo mais completo. A América do Sul, que durante muito tempo foi dominada pela Argentina, começou a sentir o peso de um Brasil mais preparado taticamente.
Os problemas que ainda existem — e que prefiro não esconder
Seria desonesto da minha parte pintar um quadro todo cor-de-rosa. Quando dou workshops sobre desenvolvimento esportivo, uma das perguntas mais frequentes é: “Por que o Brasil não consegue manter a consistência nos resultados internacionais?” E a resposta incomoda bastante.
O financiamento do basquete brasileiro ainda depende demais de patrocínio privado instável e de verbas públicas que variam conforme o ciclo político. Diferente do futebol — que tem receita própria robusta via direitos de transmissão, bilheteria e licenciamento —, o basquete não tem essa independência financeira. Quando um patrocinador principal sai, clubes inteiros entram em colapso. Já vi times que disputaram o NBB desaparecerem em menos de dois anos por questões financeiras.
Existe também um problema de visibilidade que afeta diretamente o desenvolvimento. O basquete ainda luta por espaço na grade de TV aberta no Brasil. A transmissão cresceu via plataformas digitais e canais fechados, o que é positivo, mas o alcance é menor. Criança que não vê basquete na TV não sonha em jogar basquete — essa é uma realidade simples que os gestores do esporte conhecem bem e para a qual ainda não encontraram solução definitiva.
A disparidade regional também me preocupa. O basquete de alta performance no Brasil ainda está muito concentrado em São Paulo, Rio de Janeiro e alguns polos do Sul e Sudeste. Quando olho pra regiões como o Norte e o Nordeste, o que vejo é muito talento desperdiçado por falta de estrutura, técnicos qualificados e competições regionais sérias. Isso limita o tamanho do nosso “funil” de talentos — e consequentemente o teto que podemos alcançar.
A Argentina como parâmetro — e por que essa comparação é necessária
Não dá pra falar de basquete sul-americano sem mencionar a Argentina. Por muito tempo, os argentinos foram a referência absoluta do continente — e com razão. A geração que venceu a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Atenas 2004, com Manu Ginóbili, Luis Scola e Pepe Sánchez, estabeleceu um padrão que parecia impossível de alcançar para qualquer outro país da América do Sul.
O que eu percebi ao longo dos anos — e que costumo dizer nos meus cursos — é que o Brasil não precisava copiar a Argentina. Precisava entender o que ela fez de estrutural: investimento contínuo em base, liga doméstica competitiva e uma identidade de jogo clara. O erro que cometi por muito tempo foi comparar resultados ao invés de comparar processos. Resultado é consequência. Processo é o que você controla.
Hoje, o Brasil ganhou terreno real nessa disputa. Nos Jogos Pan-Americanos de Santiago, em 2023, a seleção masculina brasileira conquistou a medalha de ouro, superando a Argentina na fase semifinal. Esse resultado não foi sorte — foi fruto de anos de trabalho estrutural que começou a dar retorno visível.
O basquete feminino como espelho do que é possível
Quando os alunos me perguntam se o Brasil tem capacidade de competir de verdade, eu sempre aponto pra seleção feminina como evidência mais sólida. O basquete feminino brasileiro tem uma história de conquistas sul-americanas consistentes, com múltiplos títulos no Campeonato Sul-Americano ao longo das últimas décadas. Isso mostra que a estrutura pode funcionar — quando há continuidade e investimento.
Jogadoras como Érika de Souza, que teve carreira relevante na WNBA, abriram caminhos e criaram referências concretas para as gerações seguintes. O que me chama atenção é que o basquete feminino brasileiro conseguiu fazer algo que o masculino ainda tenta consolidar: manter um núcleo de identidade mesmo com a troca de gerações.
Isso me faz acreditar que o caminho existe — e que ele passa por continuidade de projeto, não por apostas em talentos individuais isolados.
O que realmente mudou na mentalidade competitiva
Uma coisa que mudei de opinião nos últimos anos foi sobre o peso da mentalidade no basquete de alto rendimento. Antes, eu achava que era conversa de coach motivacional. Hoje, depois de acompanhar de perto como jogadores brasileiros se comportam em campeonatos continentais, entendo que há algo real nisso.
O basquete brasileiro aprendeu a não se intimidar com adversários sul-americanos. Parece simples, mas não é. Durante anos, o Brasil entrava em quadra contra a Argentina ou a Venezuela com um peso mental que comprometia o desempenho. A geração atual de jogadores cresceu vendo o Brasil ganhar — e isso muda o que você acredita ser possível.
Outro aspecto que observo nos treinamentos e clínicas que acompanho: o nível técnico individual melhorou significativamente. O acesso a conteúdo técnico de qualidade — vídeos, análises táticas, metodologias de treinamento — democratizou o conhecimento de uma forma que não existia há quinze anos. Um técnico de basquete no interior do Paraná hoje tem acesso a informações que antes só chegavam a quem trabalhava em clubes de elite.
Onde o Brasil ainda precisa crescer pra dar o próximo salto
Competir bem na América do Sul é um passo. Competir no Campeonato Mundial e nas Olimpíadas com regularidade é outro patamar — e esse ainda exige muito trabalho.
Os pontos que precisam de atenção, na minha leitura:
- Profundidade de elenco: o Brasil ainda depende demais de poucos nomes pra sustentar o nível. Quando um ou dois jogadores-chave ficam fora por lesão, o time cai de rendimento de forma acentuada.
- Continuidade de comissão técnica: trocas frequentes de treinadores interrompem a construção de sistema. Identidade de jogo leva tempo — e o Brasil ainda tem dificuldade de manter projetos longos.
- Presença de brasileiros no exterior competitivo: quanto mais jogadores brasileiros atuam em ligas europeias e na NBA, maior o nível que eles trazem de volta pra seleção. Isso ainda precisa crescer em quantidade e qualidade.
- Investimento em análise de desempenho: o uso de dados e tecnologia no basquete profissional é crescente no mundo todo. Clubes brasileiros ainda estão atrás das referências internacionais nesse aspecto.
Por que acredito que essa evolução é real — e não só narrativa
Já fui cético. Já ouvi muita vez a frase “o basquete brasileiro está crescendo” e não vi nada mudar de fato. Por isso entendo quem desconfia. Mas os resultados recentes — combinados com mudanças estruturais verificáveis na liga doméstica e na formação de atletas — me convencem de que desta vez há substância por trás da narrativa.
O NBB completou mais de quinze anos de existência. Isso, sozinho, já é diferente do que existia antes. Competições com essa longevidade criam cultura, criam referências, criam mercado. E mercado atrai investimento — que, por sua vez, atrai talentos que antes emigrariam pra outros esportes.
Não é transformação instantânea. Mas é real.
A ressalva que não posso deixar de fazer
Tudo que escrevi aqui parte de uma perspectiva específica — a de quem acompanha o basquete brasileiro de perto, ensina sobre ele e acredita no seu potencial. Mas preciso ser honesto sobre os limites do que sei e do que posso afirmar com segurança.
A evolução do basquete brasileiro na América do Sul é real nos resultados recentes e nas estruturas que foram construídas. Mas se ela vai se sustentar nas próximas décadas depende de variáveis que estão além do esporte em si — financiamento, política esportiva, prioridades governamentais e o interesse contínuo do setor privado. Essas são forças externas que nenhum técnico, nenhuma confederação e nenhum artigo consegue controlar.
O que fica em aberto — e que me mantém atento — é saber se o Brasil vai conseguir transformar essa boa fase em algo institucional e permanente, ou se daqui a dez anos estaremos, de novo, falando sobre “potencial” como se fosse uma promessa sempre renovada. Essa resposta, honestamente, ainda não existe. E qualquer um que te diga que sim está vendendo mais certeza do que o tema permite.





