Eu confesso que fui daqueles que subestimou os Jogos de Paris. Não que eu não gostasse de olimpíada — pelo contrário, sou daquele tipo que para tudo quando começa a abertura. Mas em 2024, depois de Tokyo e de toda aquela euforia que durou pouco mais de uma semana no noticiário, eu achei que ia ser mais do mesmo: torcer pro Isaquias no caiaque, rezar pra Rebeca Andrade não se machucar, e vibrar com alguma medalha de judô. O script pareceu previsível. Aí Paris aconteceu, e eu precisei engolir algumas opiniões que eu tinha formado sem ter base nenhuma.
O que me surpreendeu não foi só o número de medalhas. Foi perceber que eu estava olhando pro atletismo brasileiro com os olhos de vinte anos atrás. Eu precisava atualizar o mapa.
O ponto de partida: o que eu achei que ia acontecer
Antes dos jogos, minha lista de apostas era conservadora. Rebeca Andrade na ginástica artística — óbvio. Bia Souza no judô — provável. Beatriz Ferreira no boxe — possível. Alison e Evandro no vôlei de praia — quem sabe. Era um raciocínio baseado em ciclo olímpico anterior, em nomes que eu já conhecia, em histórias que eu já tinha acompanhado.
Esse é exatamente o erro que muita gente comete quando vai acompanhar uma olimpíada sem estudar o processo que acontece nos quatro anos entre um ciclo e outro. Eu tratei os Jogos de Paris como se fosse uma continuação de Tokyo, quando na verdade era uma edição completamente nova, com atletas que tinham amadurecido, outros que tinham surgido do zero, e condições completamente diferentes.
Rebeca Andrade: quando você já espera grandeza e ela ainda te supera
Tem algo curioso em acompanhar a Rebeca. Você acha que já sabe o tamanho dela, e ela cresce mais. Em Paris, ela conquistou quatro medalhas — ouro no individual geral e no salto, prata por equipes e bronze no solo — e se tornou a atleta brasileira com mais medalhas olímpicas da história. Isso não é retórica. É fato verificável pelo Comitê Olímpico Brasileiro.
O que me pegou de surpresa não foi ela ganhar. Foi a forma como ela ganhou. A disputa com Simone Biles no solo, com a Rebeca levando o ouro depois de uma apresentação impecável, é o tipo de cena que a gente vai lembrar por décadas. Eu assisti ao vivo, no sofá, e fiquei parado por uns segundos sem saber bem o que gritar.
A trajetória dela tem um elemento que eu não valoriza o suficiente antes: ela passou por cinco cirurgias no joelho ao longo da carreira. Cinco. E voltou cada vez mais forte. Isso muda a forma como você interpreta cada apresentação — não é só técnica, é uma reconstrução inteira do corpo e da cabeça.
Bia Souza e o judô que o Brasil ainda não aprendeu a amar do jeito certo
Aqui é onde eu precisei rever minha cabeça com mais humildade.
Beatriz Souza — a Bia — ganhou o ouro na categoria acima de 78kg com uma final dominante. Mas antes de Paris, eu não sabia praticamente nada sobre ela. Sabia que ela era considerada favorita, li isso em alguma matéria do UOL Esporte, e segui em frente. Não dei a atenção que ela merecia.
O judô brasileiro tem uma tradição olímpica consistente — desde Aurélio Miguel em Seul, em 1988, o Brasil raramente saiu de uma olimpíada sem pelo menos uma medalha na modalidade. Mas o público geral, incluindo eu, tende a tratar o judô como “aquele esporte que a gente só assiste de quatro em quatro anos”. É uma ingratidão coletiva com atletas que treinam décadas pra chegar em um tatame por três minutos.
A Bia foi ouro. E foi merecido de um jeito que vai muito além da final — ela chegou em Paris vindo de uma sequência de resultados no Grand Slam que eu simplesmente não acompanhei. Minha lição: o ciclo olímpico começa no dia seguinte à última olimpíada, não nas semanas que antecedem a próxima.
Alison e Evandro: a praia que virou ouro em Paris
Vôlei de praia masculino brasileiro tem uma história pesada. Emanuel e Ricardo definiram um padrão tão alto que qualquer dupla que veio depois carrega esse peso. Eu, sinceramente, tinha pouca fé que Alison Cerutti e Evandro Gonçalves chegariam ao topo em Paris — não por falta de qualidade, mas porque eu os via como dupla de prata eterna, aqueles caras que chegam perto mas não fecham.
Errei feio.
Eles conquistaram o ouro em Paris numa campanha que foi crescendo ao longo do torneio. A final foi disputada numa atmosfera que o Estádio de La Tour-Eiffel criou — aquele cenário com a Torre Eiffel ao fundo que virou imagem icônica dos jogos. Assistir àquela final foi um daqueles momentos em que você lembra por que a olimpíada ainda é o maior espetáculo esportivo do planeta, apesar de tudo.
O que eu aprendi sobre vôlei de praia nesse processo: a dupla brasileira tem uma leitura de jogo que é diferente das europeias. É mais instintiva, menos sistemática — e em Paris, em condições de vento que complicaram todo mundo, essa leitura fez diferença.
Ana Patrícia e Duda: quando o feminino manda no vôlei de praia também
Se o masculino me surpreendeu, o feminino me deixou com vergonha da minha falta de atenção.
Ana Patrícia e Duda foram ouro em Paris com uma campanha consistente e sem a polêmica que às vezes contamina resultados de alto nível. As duas chegaram como favoritas — eram as melhores ranqueadas do circuito mundial — mas eu não tinha prestado atenção suficiente nessa informação antes dos jogos.
Duda Lisboa tinha 22 anos durante os Jogos de Paris. Vinte e dois. Ela jogou como alguém que não sente o peso da ocasião, o que é raro em qualquer esporte de alto rendimento. Ana Patrícia, por sua vez, é uma das defensoras mais completas do circuito mundial, e essa complementaridade entre as duas funcionou de forma que ficou evidente pra qualquer um que assistiu mais de um jogo delas em Paris.
O Brasil ganhou ouro no masculino e no feminino em vôlei de praia numa mesma olimpíada. Isso não é trivial. E eu fui lá pesquisar depois pra entender melhor a história da modalidade no país — deveria ter feito isso antes.
O que o atletismo finalmente entregou — e o que ainda falta
Atletismo é aquele esporte que o Brasil tem talento, tem atletas de ponta, e ainda assim enfrenta uma dificuldade histórica de converter isso em medalhas olímpicas nas provas de pista. Em Paris, houve progressos importantes, especialmente nas provas de velocidade e no salto triplo — área onde o Brasil tem tradição com nomes como Jadel Gregson e, mais recentemente, com atletas que vêm se destacando no circuito da World Athletics.
Não vou inventar números que não tenho certeza aqui. O que posso dizer com segurança é que o investimento em estrutura de treinamento para o atletismo brasileiro cresceu entre Tokyo e Paris, e isso apareceu nos resultados. Ainda tem um caminho longo pra chegar no nível jamaicano ou americano nas provas de velocidade, mas a distância diminuiu.
O que me frustrou: a cobertura televisiva brasileira ainda trata atletismo como coadjuvante. A gente vê mais comentário sobre natação americana do que sobre atletismo brasileiro em olimpíada. Isso é uma escolha editorial que tem consequências — atletas que não recebem visibilidade têm mais dificuldade de conseguir patrocínio, e sem patrocínio, o ciclo de quatro anos fica muito mais duro de sustentar.
Gabriel Medina e a imagem que resumiu os jogos
Tem uma foto do Gabriel Medina em Paris que rodou o mundo. Ele no ar, prancha na mão, num gesto que parece mais cena de filme do que realidade. Aquela imagem foi tirada durante as quartas de final do surfe masculino e se tornou uma das fotos mais compartilhadas dos Jogos Olímpicos de Paris.
Medina não ganhou o ouro — João Chianca, o Chumbo, ficou com o bronze — mas a presença do surfe brasileiro em Paris foi marcante de um jeito que vai além de medalha. O Medina é um dos maiores surfistas da história do esporte, com três títulos mundiais pela WSL, e em Paris ele mostrou por que ainda é um dos nomes mais temidos no circuito.
O surfe entrou na olimpíada em Tokyo, em 2021, e já em Paris o Brasil provou que não foi fluke — temos profundidade nessa modalidade. Isso é resultado de décadas de cultura de praia, de investimento em base, e de uma geração que cresceu assistindo os Ítalo Ferreira e Medina vencerem no circuito mundial.
O que Paris me ensinou sobre como eu acompanhava o esporte
Eu passei anos acompanhando olimpíadas de um jeito passivo. Ligava a TV quando tinha final, torcia, emocionava, e esquecia. Não acompanhava o ciclo, não entendia as classificatórias, não sabia quem eram os atletas que estavam surgindo fora das modalidades mais populares.
Paris mudou isso em mim de uma forma prática. Comecei a acompanhar o COB — Comitê Olímpico Brasileiro — nas redes sociais, que tem feito um trabalho decente de comunicar a trajetória dos atletas ao longo do ciclo. Comecei a prestar atenção em resultados de Grand Slam de judô, de etapas do circuito mundial de vôlei de praia, de provas da Diamond League de atletismo.
Não virei especialista. Mas deixei de ser aquele espectador que aparece só na semana da final e acha que entende tudo.
Tem uma diferença enorme entre torcer por um atleta que você acompanhou por quatro anos e torcer por um nome que você leu no telão. A emoção é outra. A conexão é outra. E a compreensão do que aquela performance representa — com todas as lesões, os ciclos de treinamento, as competições classificatórias, as escolhas que aquela pessoa fez ao longo de anos — é completamente diferente.
O que vem por aí: Los Angeles 2028 já começou
Enquanto eu escrevo isso, em 2026, já existem atletas brasileiros em preparação para Los Angeles. A Rebeca Andrade já indicou que quer estar lá — ela vai ter 29 anos em 2028, e a ginástica artística tem uma janela curta, mas ela provou que as regras de longevidade não se aplicam a ela da mesma forma.
O judô brasileiro tem uma geração jovem que vem se consolidando no circuito mundial. O vôlei de praia vai ter renovação — natural em qualquer esporte — mas a base está construída. E o surfe, com uma geração de atletas que cresceu num país que tem litoral de norte a sul, tem tudo pra continuar entregando.
Meu plano é diferente desta vez. Vou acompanhar o ciclo desde agora. Não vou chegar em 2028 precisando estudar às pressas quem são os favoritos brasileiros. Já comecei a perder esse hábito em Paris, e não quero voltar atrás.
Paris nos lembrou de algo que a gente esquece fácil: o Brasil é uma potência olímpica que ainda está crescendo. Não é um clichê — é uma observação de quem finalmente parou de olhar só pra medalha e começou a entender o processo. Esses atletas não surpreenderam porque vieram do nada. Surpreenderam quem, como eu, não estava prestando atenção no trabalho que vinha sendo feito.






