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Celebridades brasileiras que mudaram de carreira e ninguém viu vindo

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Eu estava folheando o feed numa tarde sem compromisso quando topei com uma foto que me fez parar. Era Rodrigo Hilbert — sim, aquele, o modelo e apresentador — em frente a uma peça de madeira que ele mesmo havia entalhado. Não como hobby de fim de semana. Como ofício. Com vídeos ensinando técnica, com projeto estruturado, com uma linguagem que era claramente a de alguém que havia estudado marcenaria de verdade. Fiquei olhando por uns bons minutos tentando entender quando exatamente isso tinha acontecido, e a resposta honesta era: eu não tinha visto.

Esse momento me puxou pra uma reflexão mais longa sobre como a gente consome celebridade no Brasil. A gente acompanha o produto final — o rosto na tevê, o post patrocinado, a capa de revista — mas raramente acompanha o processo. E é justamente no processo que as viradas acontecem, quase sempre em silêncio.

A virada que não tem coletiva de imprensa

Existe uma fantasia muito difundida de que mudança de carreira é evento. Que tem um comunicado, uma entrevista exclusiva, uma manchete. Às vezes tem. Mas na maioria dos casos que fui rastreando ao longo do tempo, a transição começa de um jeito quase imperceptível — um projeto paralelo aqui, uma parceria diferente ali — e só vira “notícia” quando já está consolidado.

Rodrigo Hilbert é o exemplo que eu uso com mais frequência porque ele é explícito na trajetória. Começou como modelo, virou apresentador de culinária no Tempero de Família, e foi expandindo uma identidade de “homem que faz coisas com as próprias mãos” de forma tão orgânica que hoje ele é referência em marcenaria amadora e construção civil doméstica. Não tem um ponto zero identificável. É uma acumulação de camadas que, vista de fora, parece ter acontecido da noite pro dia.

O que me interessa nessa dinâmica não é o resultado — é o que ela diz sobre como o público e a mídia processam transformação. A gente tende a fixar uma pessoa numa identidade e resistir às atualizações. Quando a atualização é grande o suficiente pra não ser ignorada, vira surpresa. Mas raramente foi surpresa pra quem estava prestando atenção.

Quando o esporte entrega um artista — ou um empresário

Neymar é um caso que eu acho mal analisado. O debate público sobre ele oscila entre futebol e polêmica pessoal, e no meio disso passa despercebido que ele construiu ao longo dos anos uma presença no mundo do entretenimento e dos negócios que vai muito além de endosso de marca. A produtora, os investimentos em esports, a presença em eventos de poker internacional — isso não é acidente. É construção deliberada de uma segunda identidade profissional que vai existir independente de quando ele pendurar as chuteiras.

Mas o caso que eu acho mais subavaliado é o de Gustavo Kuerten. O Guga saiu do tênis no auge da admiração popular e, em vez de se tornar comentarista esportivo — o caminho óbvio — foi construindo uma atuação no terceiro setor, com foco em inclusão pelo esporte, de um jeito que mudou genuinamente o que o nome dele significa. Hoje quando você pesquisa Guga fora do contexto de Roland Garros, o que aparece é esse trabalho. Isso é uma reinvenção real, com substância, e aconteceu sem nenhum reposicionamento espetaculoso de marca pessoal.

O ator que vira chef, o chef que vira escritor

Tem uma categoria específica de transição que me fascina: quando alguém sai de uma área criativa pra outra área criativa completamente diferente. Não é lateral — é diagonal.

Ana Paula Padrão passou décadas como jornalista e apresentadora de peso na televisão brasileira. A virada pra escritora de ficção não foi imediata nem óbvia. Ela já havia feito jornalismo literário, livros de não ficção — mas quando publicou ficção, houve um estranhamento genuíno em parte do público, como se a identidade de apresentadora fosse incompatível com a de romancista. Esse estranhamento, pra mim, diz mais sobre a limitação do público do que sobre a trajetória dela.

Aracy de Almeida foi cantora de samba antes de qualquer coisa — mas poucos sabem que ela também atuou, foi locutora e teve uma trajetória no rádio que ia muito além da música. O padrão se repete em gerações diferentes: a especialização que o mercado impõe não reflete necessariamente a amplitude da pessoa.

O silêncio do processo e o barulho do resultado

Tem algo que eu precisei aprender observando esses casos: o processo de transição de carreira — mesmo pra quem tem visibilidade pública — costuma ser solitário e pouco documentado em tempo real. A pessoa está no meio de uma incerteza enorme, testando coisas que podem não funcionar, e o público só vai saber desse período quando já tiver um desfecho pra empacotar.

Isso cria uma distorção. A gente vê a chegada e assume que foi linear. Que houve um plano claro desde o começo. Mas se você presta atenção nas entrevistas que essas pessoas dão anos depois, quase sempre aparece um período de dúvida, de tentativa, de projeto que não decolou antes do que decolou.

Eu me identifico com isso — não porque seja celebridade, mas porque passei anos cobrindo cultura e entretenimento e aprendi que o relato público de uma carreira raramente corresponde à experiência vivida dela. A narrativa retroativa organiza o que na prática foi caótico.

Xuxa e a reinvenção que o Brasil não sabe nomear

Xuxa merece um parágrafo separado porque o caso dela é complexo de um jeito que a conversa popular não consegue capturar direito. Ela foi o maior fenômeno do entretenimento infantil brasileiro por décadas — isso é fato estabelecido. A transição pra uma presença mais adulta, mais intimista, mais voltada pra causas como veganismo e proteção animal, não foi recebida com unanimidade. Parte do público sentiu estranhamento. Outra parte — especialmente os que cresceram com ela e agora têm quarenta anos — acompanhou com uma espécie de afeto renovado.

O que me interessa não é julgar se a reinvenção “funcionou” no sentido comercial. É observar que ela existe, que é real, e que foi feita sem pedir permissão pra quem esperava que ela continuasse sendo exatamente o que foi nos anos 1980 e 1990. Isso tem um valor que vai além de estratégia de carreira.

Por que o Brasil é especialmente mau em reconhecer transições

Existe algo na cultura do entretenimento brasileiro que tende a hiperespecializar as pessoas publicamente. Você é o ator da Globo, ou você é o sertanejo, ou você é o jogador. Quando alguém sai dessa caixinha, a primeira reação costuma ser ceticismo — “será que vai dar certo?” — seguida, se der certo, de uma revisão retroativa que apaga o ceticismo inicial.

Isso não é exclusividade do Brasil, mas aqui tem um tempero adicional: a velocidade com que figuras públicas são construídas e descartadas pela mídia tradicional cria um ambiente onde a reinvenção precisa ser rápida pra não parecer fracasso. Quem toma o caminho mais lento — como Kuerten, como Hilbert — frequentemente passa por um período em que a narrativa pública fica sem saber o que fazer com aquela pessoa.

E esse limbo, curiosamente, pode ser o melhor lugar pra uma transição acontecer de verdade. Longe do holofote, sem a pressão de corresponder a expectativas, há espaço pra errar sem que o erro vire manchete.

O que esses casos têm em comum — e o que isso significa pra quem não é famoso

Eu penso nisso com frequência porque a dinâmica não é exclusiva de quem tem câmera na frente. As mesmas forças operam em qualquer transição profissional: a identidade que o ambiente externo projeta sobre você, a resistência interna a abrir mão do que funcionou, o período de ambiguidade onde você não é mais uma coisa mas ainda não é outra, e a tendência de quem observa de fora de só reconhecer a mudança quando ela está consumada.

O que separa as transições que “dão certo” — nos casos que acompanhei, seja de celebridades ou não — raramente é talento bruto. É consistência durante o período em que ninguém está prestando atenção. É continuar construindo algo quando não há validação externa pra sustentar o esforço.

Hilbert continuou postando vídeos de marcenaria muito antes de ter audiência nisso. Kuerten continuou desenvolvendo seu trabalho social muito antes de isso virar parte da narrativa pública sobre ele. A virada visível foi consequência de um trabalho invisível que durou anos.

O que fica quando o personagem some

Tem uma pergunta que eu acho mais honesta do que “será que vai dar certo?”: o que essa pessoa seria se não houvesse câmera? Em vários dos casos que observei, a resposta a essa pergunta já estava sendo construída em paralelo com a carreira principal, muito antes de virar pauta.

Isso não romantiza a transição. Muitas não funcionam. Muitos projetos paralelos de celebridades são abandonados sem alarde porque o mercado não respondeu ou porque a própria pessoa perdeu o interesse. O filtro de sobrevivência faz com que só ouçamos sobre as que deram certo.

Mas mesmo sabendo disso, eu continuo achando que há algo genuinamente revelador no momento em que uma pessoa pública larga — ou expande — o que a tornou conhecida. É um dos poucos momentos em que dá pra ver algo além do personagem construído para consumo.

A mudança que ninguém viu vindo quase nunca é surpresa total. É só que a gente não estava olhando pro lugar certo.

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